quarta-feira, fevereiro 06, 2008

o sentido

Imaginem só: uma sala escura, de fundo negro repleta de televisões que aparentam estar suspensas no ar; televisões essas que mostram, passo a passo, o eclipse da lua. É verdade que por esta altura devia dizer o senti, os pensamentos que me ocorreram, devia expressar uma opinião no mínimo artística. Devia ter pensado algo verdadeiramente inteligente. Na verdade o que senti não foi o vazio do negro da sala (que nesta altura era o meu pequeno/grande mundo) que me preenchia, nem o universo, ou a grandiosidade absoluta do infinito. O que senti foi apego à imagem, deslumbramento, felicidade inocente de uma criança. Não foi pensar, nem reflectir, não foi divagar sobre objectivos e propósitos, foi sentir. Foi deixar um mundo atrás daquela porta (deixar medos, mágoas, ânsias e até alegrias e desejos) e entrar noutro, onde de facto já estou, mas nunca me apercebo. Foi por segundos sentir calma, paz. Foi assim, sentido de realidade, que sabe bem.

2 comentários:

João disse...

Adoro a maneira como escreves e como pareces transplantar esse coração enorme para a tua vida. Impressionei-me por te ouvir citar Barthes neste post. Eu li esse livro fantástico dele, e só tenho pena de não existir ninguém na minha vida com quem o possa discutir. Talvez deva mudar de vida...ou de amigos, não sei.
Também como Barthes, eu desejo aprofundar a vida não como uma "questão" mas como uma "ferida": "vejo, sinto, portanto reparo, olho e penso."

Obrigado.

És linda.

PS - o comentário é relativo a outro post...mas tinha medo que não o visses...

João disse...

"O paradoxo é este: como é possível ter um ar inteligente sem pensar em nada de inteligente, olhando para aquele pedaço de baquelite preta? É que o olhar, fazendo a economia da visão, parece retido por qualquer coisa de interior. [...] De facto ele não olha nada; ele retém dentro de si o seu amor e o seu medo. É isso o Olhar." RB A Camara Clara