segunda-feira, março 01, 2010

Oh dear Barcelona

Com alguma nostalgia vejo-me a voltar. Sim, para muitos de vocês, que me acompanharam (mesmo de longe) nesta experiência é estranho ouvir (ver) estas palavras. Mas é verdade, como o Variações dizia, com tanta razão, só estamos bem onde não estamos. Tanto que me pergunto, será a vida assim? Estar sempre num constante ir ou voltar? Mas afinal não importa, não é assim tao mau. É um medo, um bichinho inquieto e pequenino que vive cá dentro e às vezes se vê surpreendido com o exterior que o arranca do escuro. Tantas vezes, muito bem surpreendido.


E a verdade, é que levo muito mais do que alguma vez pensei haver perdido, há algum tempo atrás, quando chorava desesperada no avião (a altitude também não ajudou) de abandonar Portugal.

"Lo bueno nunca acaba, si hay algo dentro de ti que lo recuerda"

domingo, fevereiro 21, 2010

dá-me lume

"Chegaste com três vinténs
e o ar de quem não tem
muito mais a perder
o vinho não era bom
a banda não tinha tom
mas tu fizeste a noite apetecer
mandaste a minha solidão embora
iluminaste o pavilhão da aurora
com o teu passo inseguro
e o paraíso no teu olhar

Eu fiquei louco por ti
logo rejuvenesci
não podia falhar
dispondo a meu favor
da eloquência do amor
ali mesmo à mão de semear
mostrei-te a origem do bem e o reverso
provei-te que o que conta no universo
é esse passo inseguro
e o paraiso no teu olhar

Dá-me lume, dá-me lume
deixa o teu fogo envolver-me
até a musica acabar
dá-me lume, não deixes o frio entrar
faz os teus braços fechar-me as asas
há tanto tempo a acenar
(...)"

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

São vontades

Há uns dias que me apetecia escrever. E ainda me apetece, sentir aquela sensação de alivio que costumava sentir.
Continuo com tanta vontade de escrever. Continuo sem saber bem o quê.

quinta-feira, janeiro 28, 2010

"Le Fabuleaux Destin d'Amélie Poulain" - quero ser uma amélie

"Sans toi, les émotions d'aujourd'hui ne seraient que la peau morte des émotions d'autrefois."



Sem dúvida, a melhor banda sonora dos últimos tempos. Não desprezando de algum modo os desempenhos ou o próprio guião (que me parece simplesmente maravilhoso), devo dizer que agora percebo quando me dizem que a música pode "fazer" um filme.

sábado, janeiro 23, 2010

Confimado





Este blog é mesmo uma maternidade. Saudades dos pirralhos e vontade gigante de conhecer a alicinha.

sábado, janeiro 09, 2010

Finalmente, Alice





A Alice já chegou. Quis mesmo nascer no dia a seguir a eu me vir embora... Teimosa, teimosa, que nem a mãe.
Prepara-te para esta família alicinha, é dura de roer.

terça-feira, janeiro 05, 2010

ele voltou

"Eu amo tudo que foi
Tudo o que já não é
A dor que já não me dói
A antiga e errónea fé
O ontem que deixou alegria
Só porque foi,e voou
E hoje é já outro dia"

Fernando Pessoa

(porque já não me fazia companhia há algum tempo)

sábado, dezembro 12, 2009

terça-feira, dezembro 08, 2009

O António Variaçoes é o maior (cantado pelo Camané ainda melhor)

Estou além

Porque só estou bem aonde nao estou. (e é assim que sabe bem)

P.S.- peço desculpa pela falta de acentos mas por estas terras nao têm o sonido "AO" tao português...)

quarta-feira, novembro 18, 2009

Hoje lembrei-me das tardes que passávamos lá em casa, todos à volta da mesa grande, de madeira escura, a conversar e a ver as corridas na televisão. Todos falavam muito alto e lembro-me, especialmente, da voz dele e do meu pai porque são as duas muito características e porque juntas geravam ainda mais barulho e confusão entre todas as outras vozes. Lembro-me da televisão também estar muito alta e de se ouvir o barulho dos carros a passarem na estrada, sabem aquele som?
Havia sempre comida na mesa, petiscos e coisas que a tia fazia. E lá estava ele outra vez: "aqui podes comer tudo minha querida, não tenhas medo!" Irritava-me tanto na altura aqueles comentários. Depois ria-se, alto. E contava piadas e histórias de outros tempos e eu ficava a ouvir muito atenta, lembro-me que gostava de ouvi-los conversar. E ria-se outra vez, alto. E o riso dele é daquelas coisas que nunca vou conseguir esquecer (ou espero).
Depois o que me lembro também é do cheiro da garagem. Não era só a combustível mas também aos pneus e a outros materiais.
Mas o que me surgiu muito claro (em imagem e som) hoje, foram aquelas tardes. Acho que era Verão (parece-me que sinto o calor). E na quinta fazia muito calor, parecia que tudo parava, até os cães se esparramavam preguiçosos no chão. E agora lembro-me que lhes fazia festinhas no cachaço e dizia: "oh meus cãezinhos".

quarta-feira, outubro 21, 2009

prefiro o "passageiros em trânsito"

"Imaginem um rapaz correndo de mota numa estrada secundária. O vento bate-lhe no rosto. O rapaz fecha os olhos e abre os braços, como nos filmes, sentindo-se vivo e em plena comunhão com o universo. Não vê o camião irromper do cruzamento. Morre feliz. A felicidade é quase sempre uma irresponsabilidade. Somos felizes durante os breves instantes em que fechamos os olhos."

José Eduardo Agualusa in "O Vendedor de Passados"


Muito à "City of Angeles" (aliás, a primeira imagem que me surgiu na cabeça foi a Meg Ryan de braços abertos e de caracóis loiros perfeitinhos a flutuarem ao vento) mas ainda assim ficou na memória.
Tenho de fechar mais vezes os olhos (ou abri-los melhor).

quarta-feira, outubro 14, 2009

Bem-vindo




Hoje, às 15e17 nasceu o Manuel, o meu querido esquimózinho. Tem o meu nome e tudo. Mas a ele cai-lhe melhor.

terça-feira, outubro 13, 2009

pouco sono (e muitos sonhos)

Sonho nº 1 com a sala, fiquei apovorada outra vez.
Sonho nº 2 que queria tirar uma foto a todos mas não aparecia ninguém no ecrã (Freud explicaria isto com certeza).
E no outro dia sonhei: contigo.

segunda-feira, outubro 12, 2009

Tibidabo







(lá mesmo, mesmo no cimo) a melhor vista sobre Barcelona

sexta-feira, outubro 09, 2009

ensaio(s)










Somos poucos entre tantos. Não somos assim tão especiais, nem assim tão importantes. Somos um em muitos. E eventualmente estamos (quase) sempre sós.

segunda-feira, outubro 05, 2009

Recordação da bila. a Guga na Gomes




Vou ter aulas de Fotografia (tenho medo). "Até estranhava se não dissesses isso" - comentou. Eu ri-me, é verdade.

segunda-feira, setembro 28, 2009

A Casa Portuguesa (na Gràcia)





Finalmente encontrámo-la. Um bocadinho de Portugal mesmo, mesmo aqui ao lado. Crítica (construtiva) só deixo uma: fazem falta uns produtos nortenhos. Uns covilhetes ou uma rica feijoada caíam bem.

sexta-feira, setembro 25, 2009

sobre a vida e o esquecimento

"Como creio ter-te dito, é raro olhar-te numa fotografia. Porque então estás cingida aos teus limites onde és menos tu. Mas tenho os teus livros e cadernos (...). É terrível folheá-los e sobretudo ver a tua escrita e pensar que tu estiveste ali e és tu nesse estar, presente ausente no que escreveste e ficou. A tarde escurece e vou-me esquecer um pouco, antes que me digas esquece. E sê contente com a vida, que esquece também."

Vergílio Ferreira in "Cartas a Sandra"

quinta-feira, setembro 17, 2009

(molt) em feia por




Geralmente são espelhos. Não um espelho normal de casa de banho ou quarto, mas sim dois espelhos frente a frente ou vários na mesma divisão. Deixa-me sem ar. Parece que o espaço se torna infinito em tempo e lugar (o que remete para outras questões de existência, do universo e afins que me recuso a enfrentar).
No outro dia, numa sala de um edificio de oferta turístico-cultural (que não vou aqui referir, correndo o risco de parecer um guia turístico pretencioso) tive medo, a sensação de ansiedade, de não querer virar a esquina. O antecipar horripilante da ponta do iceberg da qual o nosso inconsciente nos tem tentado proteger a vida inteira (mesmo à filme de terror). Era uma sala negra com cerca de 10 televisões (daquelas gordas, antigas - nada de ecrãs LCD) assim com "piquinhos" cinzentos como quando a antena não consegue encontrar sinal. Todas as televisões assim, "desintonizadas" e o barulho horrível desse caos televisivo.
Mas, nos últimos tempos, o que me tem perseguido são os sonhos (/pesadelos). Todas as noites quando me deito tenho medo: de acordar, ter o corpo cansado e preguiçoso de viver.
Há uns dias levantei-me e foi tudo normal. Não percebi na altura mas a sensação desapareceu e o cansaço também. "São fases"
Aqui fica uma foto da tal exposição da qual não vou referir a proveniência (quem for minimamente culto que se delicie - pretenciosidade outra vez).

quarta-feira, julho 22, 2009

a dúvida

Apercebi-me há pouco tempo que pode ser a pior coisa que conhecemos. E se?e será? mas e? as constantes perguntas o insustentável sufoco a mesma perseguição outra e outra e outra vez.
Há coisas que nunca vou ter coragem de perguntar. Há coisas que nunca me vão saber responder. Há coisas às quais me vão sempre mentir.

e às vezes olhamos para fora do nosso círculo de resignação e acontece:
"doubts. I have such doubts!"

domingo, julho 12, 2009

Hoje, às 6 e 43 da manhã, nasceu o Benjamim


e tem a boquinha mais querida que já alguma vez vi.

quarta-feira, julho 08, 2009

afinal é isto

"Costuma dizer-se que nos caiu um fardo em cima. Carregamos esse fardo, suportamo-lo ou não o suportamos. Lutamos com ele, perdemos ou ganhamos. Mas o que acontecera ao certo com Sabina?(...)
O seu drama não era o drama do peso, mas o da leveza. O que se abatera sobre ela não era um fardo, mas a insustentável leveza do ser."

Milan Kundera


o vazio.

quinta-feira, junho 11, 2009

(submersa n)O Quarto do Filho

"(...) Um filme sobre uma das mais penosas (e também inevitáveis) dimensões da existência humana: o trabalho de luto face às perdas que vamos sofrendo. É algo que se sente no corpo vivo do filme, na vibração inigualável dos actores (Moretti e Laura Morante são sublimes).
É também algo que celebra cinema como peça vital de um modo singular de entender e habitar o Mundo.
Trata-se de olhar à sua volta e...ser livre. É a mais difícil de todas as coisas."

Joaão Lopes
Premiére, Fev. 2002

quem é quem?

terça-feira, junho 09, 2009

watch your back

Descobri no outro dia que o meu mundo pode ser tudo uma ilusão criada pela minha mente esquizofrénica. Logo: tudo o que vejo e experiencio é criado por mim, deixando pra trás das costas um universo de nada. Resultado: um olhar de esguelha (completamente infrutífero, já que continua a ser o meu olhar criador) para trás das costas uma vez por dia.
Diz que é o fenomenismo radical.
Ah e qualquer coisa pode estar atrás das minhas costas. Até um rinoceronte, o Doraemon ou o Obama. Ou os três. Medo.

domingo, junho 07, 2009

eternal sunshine of the spotless mind


E se pudéssemos apagar alguém da nossa memória? Apesar de ter apanhado o filme já no final, agradou-me a ideia e a forma estranha e bizarra adoptada para o realizar. Se pudessémos empacotar sensações, momentos, imagens, se pudéssemos eliminar constantemente o passado, se pudéssemos constantemente voltar à (pura) inocência?
Um filme que nos põe a pensar sobre vários temas: a memória, a dor e a saudade...e se pudéssemos eliminar tudo isso (será que conseguiríamos?).
E se pudéssemos apagar alguém da nossa memória? Quem apagarias?

segunda-feira, maio 25, 2009

agora, um pouco de Nanni

"Aquele pouco que se pode mudar na vida não se muda por um processo racional; muda-se porque acontecem coisas, muito dolorosas ou muito belas. E essas, às vezes, são ocasiões para se mudar um pouco, esse pouco que podemos mudar."

Nanni Moretti (em entrevista ao Ípsilon)


- esperar mudar querer confundir relembrar afastar insistir desistir agarrar desprender. O caos calmo de Nanni. Tanta coisa a passar-se, tão rápido. E a verdade é que o meu desejo é sentar-me num banco de jardim, a olhar em volta, sem propósito algum.

quinta-feira, maio 21, 2009

luzes, câmara, acção




É verdade, começou a fase de filmagens e com ela surgiram uma série de variantes: dúvidas, caos e uma enorme dor de costas. No entanto, aqui fica o agradecimento aos figurantes e actores (principalmente aos nossos protagonistas: netto e zé) pela paciência e, claro, boa disposição.

o grande Zizek

"This is my fear: as if I am nothing who pretends all the time to be somebody, and has to be hiperactive all the time, just to fascinate people enough so that they don't know this: that there is nothing."

Slavoj Zizek

terça-feira, abril 28, 2009

completamente viciada

Anónimo

Em onda de barrigas, roupinhas, nomes e outras coisas afins, fiquei temporariamente possuída pelo relógio biológico dos circundantes, e assim cheguei a uma brilhante ideia. Quando um dia (pois, claro) tiver um filho, vou chamar-lhe Anónimo. Qual Pedro, Maria ou Ana? Anónimo. Simples, conciso e simultaneamente misteriosamente ambíguo. Querem nome mais original e carregado de simbolismo? As pessoas vão saber e exclamar "que belo nome".

P.S. - Anónimo ou Anônimo; ainda não decidi se entretanto parto para terras brasileiras.

segunda-feira, abril 20, 2009

deve ser do tempo

Há pouco tempo, numa aula, ainda meia ensonada, tive daqueles cliques que abrem o caminho para um conhecimento profundo. Nascemos (literalmente) agarrados a uma pessoa e passamos uma vida inteira à procura de outra, com quem morrer. Uma estranha forma de tentativa de regresso ao sentimento oceânico. Uma vontade enorme de ver necessidades e desejos completamente satisfeitos: O que não chega a acontecer mas, paradoxalmente, continuamos a tentar (um masoquismo cego). Afinal, é isto o amor.

domingo, abril 12, 2009



auto-retrato na praia do forte. eu regressei mas (infelizmente) o calor não.

quinta-feira, março 26, 2009

(de)lite

Acho piada a essa cambada de pseudo-intelectualóides que gosta de falar por meias palavras, em tom arrogante. Dizem umas piadas, elaboram frases complexas e incompreensíveis, deixam umas pistas aqui e ali na tentativa de demonstrarem o seu elevadíssimo Q.I., aah e claro espalham sempre por onde passam, um certo desinteresse artístico. São inteligentes de nascença, "cool", têm gostos estranhos, um estilo no mínimo peculiar e detestam os meros mortais. São alienados do mundo, por vezes antipáticos e transpiram um charme que só eles percebem. Já qualquer pessoa esbarrou com uma criatura destas.
Eu não os compreendo acho que são simplesmente irritantes.

sábado, março 21, 2009

esta noite improvisa-se!



Tal como a peça, a partir de agora decidi improvisar. Não pensar grande coisa, não me cansar, apenas improvisar. Largar a máscara ou, talvez, pegar noutra. Deixar uma parte de mim ou, quem sabe, reinventá-la.
Esta peça é inspirada na obra revolucionária de Luigi Pirandello de 1921. Já agora, fica aqui a manifestação de agrado pela peça em si que, creio, deveria ter-se empenhado (ainda mais) no improviso.

terça-feira, março 17, 2009

"dois"



Agora, já gritam os dois "Mané" constantemente e com quase perfeita dicção. Não é pra me gabar, mas (e é um dado adquirido) são absolutamente irresistíveis.

domingo, março 08, 2009

Já te disse para parares. Tira os dedos da boca, ainda vais fazer ferida. Porque é que continuas a pensar na mesma coisa, já não passou? Então pára de remoer as mesmas coisas, estás a deixar-me enjoada sempre com a mesma conversa. Tira daí a mão, não vais alterar o som na televisão outra vez, pois não? Essa paranóia é ridícula. A verdade é que fazes sempre as mesmas asneiras, já era hora de teres aprendido. Afinal, de que é que tens medo? Estás sempre assim por qualquer coisa, é um bocado irritante. Esse poder de acumulação então, deixa-me com os nervos em franja. Estás triste, chateada? Azar. É tudo mimo. Levanta-te. Recompõe-te. Deixa de ser fraca e faz alguma coisa em vez de te encravares nesse processo de auto-comiseração. Já era hora de parares de fazer birra, pareces uma criança. Sentes-te sozinha? Temos pena, todos têm problemas. Achavas que ias estar sempre rodeada de gente? Que ia ser sempre tudo igual? As coisas mudam, a vida é assim e esses clichés todos. E para que interessam os porquês? Para quê saber as razões? Afinal porque é que queres continuar a pensar em coisas que já estão resolvidas? 'o que não tem remédio, remediado está', era assim qualquer coisa parecida. Se já decidiste o que queres porque é que pensas no resto? Ah e pára de tirar o fiambre do pão, as pessoas olham.

quarta-feira, março 04, 2009

Há dias

"Há dias em que só pensamos no futuro. E dias em que temos saudades de quase tudo"

Eles olham para as ilustrações, apontam e balbuciam palavras sem sentido. Eu leio em tom teatral e deixo frases a meio. Tarefas de tia. A ler, repetidamente, livros de crianças, folheados à pressa, algumas frases ficam na memória.

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

o que há em mim é sobretudo cansaço

Hoje vou ficar no escuro. Não quero pensar, não vou pensar, cansa pensar, detesto pensar. Vou só sentar-me no chão do corredor, no escuro e sucumbir ao silêncio. Não faças nada, não fales, não te mexas.
Não tem mal. Na verdade, na maior parte das vezes, é um alívio enorme.


"O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

(...)
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
(...)
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço... "

Álvaro de Campos

terça-feira, fevereiro 03, 2009

a metamorfose


Um dia vou acordar e perceber que me transformei numa barata. Ou numa centopeia. Ou outro bichinho igualmente cativante. Vou ter carapaça dura, pança bem grande, e patinhas longas e peludas.
Vai ser difícil sair da cama, quando mais do quarto. E olha, paciência. Não me vou preocupar: nem com trabalhos ou notas, nem com questões existenciais, problemas de auto-estima ou ainda com relações interpessoais que, diga-se, só dão chatices.
Um dia vou acordar e ver um insecto asqueroso em mim. E olha, vou recostar-me na cama, puxar o cobertor, comer umas bolachas e dormir uma sesta.

sábado, janeiro 24, 2009

Falta qualquer coisa. Aqui dentro às vezes desperta a ansiedade. Outras, adormece. Falta qualquer coisa. Falta. Ainda não percebi bem o quê.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

"O amor romântico é como um traje, que, como não é eterno, dura tanto quanto dura; e, em breve, sob a veste do ideal que formámos, que se esfacela, surge o corpo real da pessoa humana, em que o vestimos. O amor romântico, portanto, é um caminho de desilusão. Só o não é quando a desilusão, aceite desde o príncipio, decide variar de ideal constantemente, tecer constantemente, nas oficinas da alma, novos trajes, com que constantemente se renove o aspecto da criatura, por eles vestida."

in Livro do Desassossego, Bernardo Soares


(numa visita apressada ao antigo blog ficou na memória este comentário de um - antigo - visitante regular)

sexta-feira, janeiro 16, 2009

A Importância de ser Obama

Em determinadas épocas aparecem heróis. Representem eles o que representarem (seja a decadência da droga, os problemas do álcool ou a triste instabilidade emocional), simplesmente são heróis e ponto. Falamos de personagens como Elvis Presley, o cativante rei do rock’n roll, Marylin Monroe, a loira atrevida que cantou os parabéns ao seu querido Kennedy e claro falamos de Barack Obama. O herói dos nossos tempos. Resumidamente ele tem tudo e vai-nos salvar. Seja qual for o seu problema ou inquietação, o Obama resolve.
Já me tinha apercebido desta autêntica “obamamania”, quando dei por mim a perguntar às pessoas se pudessem em quem votariam, mas o meu verdadeiro acordar aconteceu há poucos dias.
O almoço tinha caído bem e já não havia nada a fazer, estava a ser completamente assolada pela típica sensação de mente dormente e corpo cansado que geralmente se tem depois de uma boa refeição. De repente, algo me acordou da sestinha de velhote que dorme sentado: tocou a campainha. Quase de imediato, ouviu-se o barulho da loiça a ser abandonada provisoriamente e a empregada gritou em tom estridente e irritante um “Já boouu” à moda do Norte. E pronto acabara-se o descanso. Chegaria agora o caos disfarçado de gémeos angelicais. Não demorou muito para que a confusão se instalasse. Folheava o jornal e, quando estava finalmente a interessar-me por um artigo, tiraram-mo das mãos para satisfação do desejo duma das crianças. “Rais parta aos miúdos” pensei. Mas na verdade, a dita criança estava bastante irrequieta e precisava de um motivo de distracção. “Olha o Obama! Já Viste? Este é o Obama!” insistia alguém com o miúdo. “Podia estar eu a ler o artigo mas não” fugiu-me outro pensamento. Foi aqui que o meu dia parou. Após cinco minutos a apreciar atentamente a fotografia do homem mais badalado dos nossos dias, a criança ainda de poucas palavras disse com cara séria e carrancuda “Obama”. E continuou a olhar, a apontar e a dizer repetidamente “Obama, Obama”. Mas note-se que não foi um daqueles casos em que os pais dizem que as crianças já falam muito mas que depois quando as ouvimos falar não percebemos nada. O miúdo de um ano e pouco disse Obama com toda a dicção, com todo o tom de quem sabe do que está a falar. É verdade.
O Obama na televisão, o Obama em jornais, o Obama em cartazes, a voz do Obama na rádio, o Obama em canecas, o Obama em t-shirts, o Obama em postais, quadros, mesinhas de café. O Obama nos blogs, o Obama nas conversas, o Obama como a-primeira-palavra-do-bebé, o Obama nas pastas dos dentes, o Obama nos cereais, o Obama ao virar da esquina. O Obama de todos nós. De sorriso resplandecente, olhos pequeninos, risonhos, expressão amável e de braços abertos para nos ajudar em tudo e mais alguma coisa, aí está Barack Obama. Obama é o homem que todos os homens gostariam de ser (para atrair o público feminino) e o homem que todas as mulheres gostariam de ter. Alto, bem parecido, forte, crítico mas também poeta e sonhador. Há quem o tenha tentado deitar abaixo intitulando-o de intelectual elitista ou de poeta carente de realismo. A verdade é que estamos a falar de Obama, óbvio que qualquer crítica era escusada, claramente inútil. É Obama e pronto. Tem nome de árabe bombista mas ninguém se importa. É preto clarinho, os pretos acham-no pouco preto e os brancos um bocado pardo mas, no fim, ninguém quer saber. Porquê? Porque é Obama.

quarta-feira, janeiro 07, 2009

"Cá dentro inquietação, inquietação É só inquietação, inquietação Porquê, não sei Porquê, não sei Porquê, não sei ainda Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer Qualquer coisa que eu devia perceber Porquê, não sei Porquê, não sei Porquê, não sei ainda "

José Mário Branco

domingo, janeiro 04, 2009

"The camera doesn't rape, or even possesse, though it may presume, intrude, trespass, distort, exploit, and, at the farthest reach of metaphor, assassinate (...)"
Susan Sontag in "On Photography"

quarta-feira, dezembro 24, 2008


Nada. Nem palavras, nem pensamentos ou emoções. Nem pensar, ou repensar, nem querer ou dizer, nem fazer nem correr nem procurar. Nem entristecer nem sorrir. Não sentir.Nem cansar. Ficar. Olhar. Absorver. Às vezes (tantas vezes) é só assim e mais nada.

Já agora, é Natal. ho. ho. ho.

terça-feira, dezembro 02, 2008

Entretanto o tempo passou. Eles cresceram, ganharam cabelo, expressões engraçadas e muita energia. O meu cabelo foi drasticamente cortado e a minha pulseira "da sorte" rompeu-se. Muito aconteceu desde esta altura. E nós, nós ficámos especados, de olhos arregalados e boca entreaberta, a ver tudo acontecer tão rápido.
Quando me dão a mão eu sorrio e vou com eles para onde quiserem, para onde me levarem. Não me importo, não quero saber para onde, nem porquê. Correm desajeitados, com a mão pequenina agarrada à minha, soltam gargalhadas de quando a quando, tropeçam nos próprio pés. E eu vou atrás. Eles é que sabem. Com dentinhos pequeninos a espreitarem no sorriso enorme, rasgado, eles é que sabem.

sexta-feira, novembro 28, 2008

Philosofical Egoism : Max Stirner

« What is not supposed to be my concern! First and foremost, the Good Cause, then God's cause, the cause of mankind, of truth, of freedom, of humanity, of justice; further, the cause of my people, my prince my fatherland; finally, even the cause of Mind , and a thousand other causes. Only my cause is never to be my concern. "Shame on the egoist who thinks only of himself!"
(...)

God and mankind have concerned themselves for nothing, for nothing but themselves. Let me then likewise concern myself for myself, who am equally with God the nothing of all others, who am my all, who am the only one.

If God, if mankind, as you affirm, have substance enough in themselves to be all in all to themselves, then I feel that I shall still less lack that, and that I shall have no complaint to make of my "emptiness." I am not nothing in the sense of emptiness, but I am the creative nothing, the nothing out of which I myself as creator create everything.
Away, then, with every concern that is not altogether my concern! You think at least the "good cause" must be my concern? What's good, what's bad? Why, I myself am my concern, and I am neither good nor bad. Neither has meaning for me.
The divine is God's concern; the human, man's. My concern is neither the divine nor the human, not the true, good, just, free, etc., but solely what is mine, and it is not a general one, but is --unique , as I am unique.
Nothing is more to me than myself! »
Viver para si mesmo. Para uma causa única e exclusivamente individual. Forte, original, audaz, mas diga-se, bastante distante da realidade.

terça-feira, outubro 21, 2008

Porque será que aquece por dentro, faz sorrir e deixa esta sensação de alívio, apercebermo-nos das fortes crenças e feitos de outrem? O meu professor chamar-lhe-ia um processo de interpassividade, um desejo de desresponsabilização. É bem possível. Seja o que for, deixa um leve (e tantas vezes breve) rasto de força e esperança. Sabe bem.


Fado do Encontro

"Vou andando
Cantando
Tenho o sol à minha frente
Tão quente, brilhante
Sinto o fogo à flor da pele
Tão quente, beijando
Como se fosses tu

Ao longe,
Distante,
Fica o mar no horizonte
É nele, por certo
Onde a tua alma se esconde
Carente, esperando
Esse mar és tu

Pode a noite ter outra cor
Pode o vento ser mais frio
Pode a lua subir no céu
Eu já vou descendo o rio...

Na foz
Revolta
Fecho os olhos penso em ti
Tão perto
Que desperto
Há uma alma à minha frente tão quente,
Beijando
Por certo que és tu

Pode a lua subir no céu
E as nuvens a noite toldar
Pode o escuro ser como breu
Acabei por t'encontrar

Vou andando
Cantando
Tive o sol à minha frente
Tão quente brilhando
Que a saudade me deixou
Pra sempre, por certo
O meu Amor és tu. "

domingo, outubro 19, 2008

JB

O olhar vidrado no nosso, o suor que reflecte o esforço da alma, as expressões faciais descuidadas, o sorriso nervoso na tentativa de suavizar uma mágoa entranhada já há muito.
O artista. Aquele que consegue através das suas belas palavras, do seu olhar incrivelmente profundo, brotar toda a sua essência para os nossos braços, rastejando tão inesperadamente até ao nosso coração, consumindo-nos por dentro. Alguém que se dá por inteiro, que se entrega sem restrições. Alguém que expõe inocentemente todo o seu ser como tamanha paixão e intensidade que nos deixa arrasados, apanhados de surpresa.


Acho que já não existem pessoas assim.



terça-feira, outubro 07, 2008

The Rolling Stones

"You can't always get what you want
You can't always get what you want
You can't always get what you want
But if you try sometime well you just might find
You get what you need"


A sensação final que nos deixa um bom filme, a frase de um livro que abre os horizontes do nosso espírito ou a música de batida alegre que passa na rádio e nos muda o dia.
Dias em que nos apercebemos que nem sempre temos aquilo que ambicionamos tão ferozmente. Nem sempre alcançamos sonhos antigos ou metas marcadas, mas tantas vezes temos exactamente aquilo que precisamos.

segunda-feira, setembro 29, 2008

Só conseguia olhar para as pernas dobradas em tom de desistência e sentir os pés enregelados, mergulhados na poça de água mesmo colada ao passeio. As lágrimas escorriam sozinhas, abandonadas por qualquer sentimento, pensamento ou emoção. Elas escorriam por uma dor interior horrível e acima de tudo inegável. Ouvia a mesma canção dentro de mim outra e outra vez e aquele vazio enorme inundava-me a alma deixando-me com a mesma sensação de que já nada importa. Tristeza. Falar de estar triste e não estar realmente, no verdadeiro sentido da palavra, acontece frequentemente. Mas agora sabia: isto é que era sentir tristeza. Sentir o corpo abandonado pela alma, as forças a esvaírem-se, um sofrimento de certa maneira doce, poético. Olhar para os candeeiros de luz forte, ouvir os barulhos da rua, ver as pessoas a passar e sentir que esse mundo é um mundo à parte, uma espécie de pano de fundo (na cena errada).
Ouvi uns passos, um corpo quente a aproximar-se e presumi que fosse ele. Fui pensando no que ia dizer, de que maneira iria agir, qual seria a expressão na minha cara quando o seu olhar doce e calmo estivesse frente a frente ao meu. No fundo, o que iria fazer para disfarçar a confusão imensa que pairava dentro de mim, afirmando-me tão decidida e forte, exactamente como ele me vê. Desesperei. Deixei escapar novamente lágrimas gordas apesar de estar a fazer a maior força possível para as reprimir. Não conseguia pensar, nem raciocinar, só sentir a chuva forte a cair sobre o meu corpo pesado e novamente, os pés enregelados. “Assim não dá, assim não vai dar certo. Tenho de dizer as palavras certas, tenho de exprimir as emoções adequadas, tenho de agir de modo acertado. Tenho que fazer, agir e conseguir. Desta vez tem que ser. Tenho que conseguir levar até ao fim e fazer com que dê certo. A quem quero eu enganar? Nunca dá certo!!” E foram-se sucedendo uma série de palavras aleatórias, um discurso desorganizado, um raciocínio, que não sei ao certo até que ponto se lhe pode dar tal nome, de tão confuso que se afigurava. E de repente o tempo parou. E o coração também. Por esta altura, não sei dizer se estou a respirar ou não. Só consigo sentir a força da sua mão no meu ombro. “Estás bem?” – disse-me ele. “Não. Mas vou ficar.”

terça-feira, setembro 16, 2008

crise

A palavra crise, numa língua oriental (japonês, creio), é constituída por dois símbolos distintos. Um significa perigo e o outro oportunidade. Pode parecer um cliché comum e batido mas a verdade é que achei bastante curiosa esta minha descoberta. No meio de toda a confusão, de todo o caos, quando pensamos que tudo está perdido (e tantas vezes, de facto, está), no meio de todo o sofrimento, dor e mágoa, existe uma saída. Porque o que não nos mata torna-nos mesmo mais fortes. Nasce assim, inadvertidamente, uma oportunidade de procurar novas situações e experiências, de viver intensamente e com muita paixão. É que em todo o caos, em toda a confusão existe sempre uma oportunidade de passar para um patamar melhor, e está mesmo à nossa frente. Falta olhar com atenção, agarrá-la com garra, sorrir-lhe com carinho e finalmente abraçá-la com muita, muita esperança.

quarta-feira, setembro 10, 2008

um

Faz hoje um ano que eles aterraram cá, as nossas bolinhas. É estranho agora chamar-lhes bolinhas porque já nada têm de pequenino: já se mexem (até demais), já tentam simular conversas, pegam em tudo o que lhes aparece à frente, observam em seu redor com uma atenção incrível, como se ainda estivessem surpreendidos com a quantidade de coisas, cores e feitios que existem.
Eles imitam-nos, reagem à nossa voz, gestos e expressões. Já fazem birra quando estão chateados, já dão gargalhadas quando acham piada a alguma coisa. Já sabem brincar, puxar, mexer, largar, agarrar, gatinhar. Se antes eram bebés, que só choravam, comiam e dormiam, agora estão, a passinhos pequeninos, a tornar-se "alguém". Quando estamos todos juntos, vejo a evolução, vejo momentos, pedaços de vida. Vejo uma série de imagens, sons e cores carregados de emoção. Vejo uma ligação semelhante à que tenho com os meus pais e irmãos. E só posso ficar feliz.
Vão-se ligando a nós e nós deixamos, meios distraídos. Que passem muitos anos (com a devida calma), queridos bolinhas. Queremos (tanto) ver-vos crescer.

domingo, setembro 07, 2008

Ás vezes imagino-me a viver a vida dos outros. Não de pessoas com as quais convivo diariamente, mas sim pessoas imaginadas (perfeitas na sua definição: contornadas delicadamente por pormenores específicos). Vivo fragmentos das suas vidas e tantas vezes apodero-me da sua essência, talvez por mera distracção ou pura inveja. Imagino-me a ser, sentir e agir de forma completamente diferente. Afasto-me daquilo que sou e tento-me aproximar de uma realidade confusa que, apesar de distante se assemelha mais fácil de enfrentar.Agora que reflicto melhor sobre o verdadeiro significado destas frequentes divagações, acabo por lhes tirar um sentido menos positivo. Afinal apodero-me de vidas, de diferentes personalidades,de qualidades e defeitos porque...não sei, nem quero saber, o que se passa cá dentro. É (será?) melhor assim.

«"conhece-te a ti mesmo", o que, pelo menos no meu caso, constitui um péssimo conselho. Conheço-me apenas de vista, e já é bom. Um conhecimento profundo obrigaria a uma convivência mais intensa, e eu não me dou com gente desta.»
"Opinião/Boca do Inferno" por Ricardo Araújo Pereira in Visão

sábado, agosto 23, 2008

"Tudo o que necessitas, já tens dentro de ti"

Fecho os olhos... e continuo a procurar(-te)

segunda-feira, agosto 18, 2008

Mal-me-quer Bem-me-quer II

"Dá-lhe um abraço" - disse ele - "é em meu nome" - sorriu com ternura.
E ficaram assim, imóveis durante alguns segundos a olhar um para o outro, a vislumbrar um futuro irrealizável mas extremamente delicioso.
O amor platónico. A relação que não pode existir. A ligação impossível de realizar. O abraço que não pode ser dado, o beijo que não pode ser sentido, o toque que é (totalmente) proibido. Os momentos, sensações e situações que apenas tomam lugar num espaço-tempo estranho à nossa triste e esbranquiçada realidade. Afinal o amor que é mesmo perfeito precisamente por não ser de todo possível. Essa entidade superior, pura e totalizante que só existe no limiar instável da passagem para a sua concretização.

quinta-feira, julho 24, 2008

I am the escaped one

I am the escaped one,
After I was born
They locked me up inside me
But I left.
My soul seeks me,
Through hills and valley,
I hope my soul
Never finds me.

Fernando Pessoa

sábado, junho 21, 2008

"Posso ser contra aquilo que tu dizes, mas bater-me-ei até à morte para que o possas dizer"
Voltaire


A luta pela liberdade como princípio indissociável do jornalismo. Há dias assim.

quinta-feira, junho 12, 2008

manias

Havia uma espécie de vício que eu tinha quando era mais nova. Ligar e desligar o interruptor da luz das escadas duas vezes, quatro vezes ou seis (tanto fazia desde que fosse número par), subir as escadas em bicos de pés (ainda hoje o faço), dobrar os guardanapos a meio, formando um rectângulo, compor os volumes do rádio, da televisão para que ficassem em número par...pequenas manias que se foram entranhando não de modo obessessivo, do estilo "Melhor é impossível", mas mais "picuinhas" se assim se pode dizer. Uma coisa do género: tenho mesmo que fazer, tenho que provar que consigo fazer, vou obrigar-me a conseguir fazer, senão...qualquer coisa.
Ultimamente tenho sentido isso, mas noutras circunstâncias. Um tenho que alcançar, tenho que conseguir, tenho que concretizar a todo o custo, tenho que provar, mostrar, fazer acontecer!
Apagar e acender luzes não é difícil. Nunca falhei nos pequenos (e loucos) caprichos do dia-a-dia. Mas e se agora falho? O que virá depois do 'senão'?

terça-feira, maio 13, 2008

os clichés

Hoje apercebi-me que gosto de clichés. Nunca tinha reflectido muito sobre o significado desta expressão, até porque assim,à primeira, lhe dava uma conotação negativa. Mas agora que penso nisso (que me fizeram pensar), apercebi-me que a palavra não tem obrigatoriamente de significar algo típico, usado ou até foleiro... pode simplesmente ser algo familiar, assim de uma forma boa, doce. Porque afinal quando falamos de provérbios, típicas frases ou ideias repetidas falamos de uma espécie de "confirmação" daquilo que achamos ou sentimos. É como se alguém (não tão bem definido como gostaríamos) estivesse a dar-nos razão, a mostrar-nos que afinal há situações que acontecem a todos e por isso não devemos exagerar nas nossas apreciações.
É como uma "palmadinha nas costas", um "ombro onde chorar", uma "palavra oportuna de consolo"...sim, tudo clichés. E agora? Eu gosto.

segunda-feira, maio 05, 2008

my blueberry nights

"Dizer adeus nem sempre significa o fim...às vezes é apenas um novo começo."

segunda-feira, abril 28, 2008

O Principezinho













"O que significa "cativar"?

- É uma coisa de que toda a gente se esqueceu - disse a raposa. – Significa criar laços.
- Criar laços?
- Isso mesmo - disse a raposa. - Ora vê: por enquanto, para mim, tu não és senão um rapazinho perfeitamente igual a outros cem mil rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Por enquanto, para ti, eu não sou se não uma raposa igual a outras cem mil raposas. Mas, se tu me cativares, passaremos a precisar um do outro. Passarás a ser único no mundo para mim. E, para ti, eu também passarei a ser única no mundo...
- Começo a compreender - disse o principezinho. - Sabes, existe flor...creio que ela me cativou…
- É bem possivel - disse a raposa. - Vê-se de tudo à superfície da Terra...
- Oh! não é na Terra! - disse o principezinho.
A raposa pareceu ficar muito intrigada.
- Então, é noutro planeta?
- É.
- E nesse tal planeta há caçadores?
- Não.
- Começo a achar-lhe alguma graça...E galinhas?
- Não.
- A perfeição não existe...- disse a raposa.
Mas a raposa voltou a insistir na sua ideia:
- Tenho uma vida terrivelmente monótona. Eu, caço galinhas e os homens, caçam-me a mim. As galinhas são todas iguais umas às outras e os homens são todos iguais uns aos outros. Por isso, às vezes, aborreço-me um bocado. Mas, se tu me cativares, será como se o sol iluminasse a minha vida. Distinguirei, de todos os passos, um novo ruído de passos. Os outros passos fazem-me fugir para debaixo da terra. Os teus hão-de chamar-me para fora da toca, como uma música. E depois, olha! Estás a ver, ali adiante, aqueles campos de trigo? Eu não como pão e, por isso, o trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me fazem lembrar de nada. E é triste. Mas os teus cabelos são da cor do ouro. Por isso, quando me tiveres cativado, vai ser maravilhoso! Como o trigo é dourado, há-de fazer-me lembrar de ti. E hei-de amar o barulho do vento a roçar no trigo…
A raposa calou-se e ficou a olhar durante muito tempo para o principezinho.
- Cativa-me, por favor - acabou finalmente por dizer. "



Cativar: a excelente definição do que afinal é o amor. Tantas vezes tentamos explicar de modo elaborado, enfeitado, complicado...quando afinal de contas é tao simples como sorrir. Afinal é isso que é o amor, um sorriso aberto diluído na alma, não é?

sexta-feira, abril 25, 2008

"Já agora valia a pena pensar nisto"

A verdade é que tudo acaba por passar, sejam coisas boas ou más. Atormenta-nos que as boas tenham de acabar tão depressa e assola-nos a ânsia de que as más se apressem a passar. Mas a verdade é mesmo esta: tudo acaba por passar. Só é preciso um bocadinho de paciência e também vontade que apareçam mais coisas novas (boas e más).

quarta-feira, abril 09, 2008

estar ali

Hoje mergulhei no mundo deles. Senti o cheirinho a bebé, ouvi balbuciar em tentativa de expressar um qualquer sentimento, senti as mãozinhas pequeninas a puxarem-me a camisola, observei com atenção o olhar concentrado de quem tão pouco sabendo nos consegue entrar pela alma adentro. Deitei-me no meio daqueles corpinhos pequeninos e, de um momento para o outro, tudo se tornou mais simples. Fitaram-me, os dois, com uma atenção que me surpreendeu. Como se quisessem saber o porquê de eu estar ali.
Sim, hoje mergulhei no mundo deles. Ficámos os três a olhar para o tecto e enquanto eles provavelmente pensavam em sopas, leites, brincadeiras ou nos papás, eu respirei fundo e tive um daqueles deliciosos momentos em que a cabeça se esvazia e tudo deixa de importar, senão estar ali.

terça-feira, abril 01, 2008

"Como se não houvesse amanhã"

...era assim que deviam ser todos os dias.

sexta-feira, março 07, 2008


Ás vezes gostávamos quiçá de ser infelizes. Infelizes para sentirmos a genialidade que advém desse enorme sentimento de mágoa, incrível dor e sofrimento. Parece um pensamento ridículo este de querer ficar triste, não é? Mas acima de tudo é um desejo maior que nós de podermos sentir cada fibra do nosso corpo, cada pontada na alma...o sentimento que mais nada resta, apenas a dor, apenas a raiva, apenas a arte.



"Espero que a saída seja feliz, e nunca mais voltar cá."
Frida Kahlo




segunda-feira, março 03, 2008

A borboleta

Lembro-me de tardes de Primavera. De perdida no relvado verde que parecia tao enorme, na altura, tão cheio de tudo, apanhar borboletas. Apanhar borboletas e aprisioná-las nas mãos em forma de concha. Absorver a sua cor, alegria, paixão, saborear e sorrir à conta da sua vida. Hoje em dia apetece-me fazer isso, de tempos a tempos. Aprisionar sensações deliciosas, encantadoras, vibrantes, nas palmas das mãos. Agarrá-las com força e soltá-las lentamente, soprar-lhes devagarinho, de olhos fechados e peito inchado porque assim consigo, assim sim.

domingo, fevereiro 24, 2008

"Juno"

É incrível como uma série de imagens bem conjugadas, umas palavras agradáveis e uma música bem escolhida podem realmente mudar, nem que seja apenas por breves instantes, a maneira como nos sentimos e até o modo como pensamos. É incrível como hoje em dia olhamos para um filme: como se fosse a ocasional captação da realidade; e por outro lado olhamos para a realidade numa perspectiva cinematográfica: os dramas, os olhares, os momentos parados, as imagens que ficam gravadas cá dentro.
Confundimos dois mundos propositadamente (ou não), porque queremos, porque desejamos, porque podemos. Porque podemos mudar de pessoa, de pele e até de mundo...





"You're a part time lover and a full time friend
The monkey on you're back is the latest trend
I don't see what anyone can see, in anyone else
But you

I kiss you on the brain in the shadow of a train
I kiss you all starry eyed, my body's swinging from side to side
I don't see what anyone can see, in anyone else
But you

Here is the church and here is the steeple
We sure are cute for two ugly people
I don't see what anyone can see, in anyone else
But you

The pebbles forgive me, the trees forgive me
So why can't, you forgive me?
I don't see what anyone can see, in anyone else
But you

I will find my nitch in your car
With my mp3 DVD rumple-packed guitar
I don't see what anyone can see, in anyone else
But you

Du du du du du du dudu
Du du du du du du dudu
Du du du du du du dudu du

(...)"

The Moldy Peaches

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

"Malmequer, Bem-me-quer"

Vou sempre olhar-te assim como se pudesse ter-te para sempre só para mim. Vou sempre querer-te bem perto, abraçar-te quando tudo estiver a correr mal. Vou sempre desejar o teu toque apenas para imaginar que tudo pode correr bem. Apesar de saber que nunca te poderei tocar (aliás isso seria o fim de nós dois). Vou sempre ter-te. Beijar-te às escondidas na escuridão do meu pensamento. Vou sempre entrelaçar com força e carinho as minhas mãos atrás das costas, só para imaginar que uma delas é a tua. E apesar de sempre sabermos que nada disto se vai concretizar de verdade, num mundo real de tons escuros, tu farás exactamente o mesmo, com um sorriso nos lábios, porque também o sentes dentro de ti.

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

o sentido

Imaginem só: uma sala escura, de fundo negro repleta de televisões que aparentam estar suspensas no ar; televisões essas que mostram, passo a passo, o eclipse da lua. É verdade que por esta altura devia dizer o senti, os pensamentos que me ocorreram, devia expressar uma opinião no mínimo artística. Devia ter pensado algo verdadeiramente inteligente. Na verdade o que senti não foi o vazio do negro da sala (que nesta altura era o meu pequeno/grande mundo) que me preenchia, nem o universo, ou a grandiosidade absoluta do infinito. O que senti foi apego à imagem, deslumbramento, felicidade inocente de uma criança. Não foi pensar, nem reflectir, não foi divagar sobre objectivos e propósitos, foi sentir. Foi deixar um mundo atrás daquela porta (deixar medos, mágoas, ânsias e até alegrias e desejos) e entrar noutro, onde de facto já estou, mas nunca me apercebo. Foi por segundos sentir calma, paz. Foi assim, sentido de realidade, que sabe bem.

domingo, janeiro 27, 2008

a carta

"O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis."

Fernando Pessoa

Amei sim.

sábado, janeiro 26, 2008

"O meu fabuloso destino"

Apercebi-me há pouco tempo que podemos fazer escolhas. E não falo de fazermos escolhas triviais do dia a dia. Aliás até nessas falo porque são os pequenos passos para as grandes decisões. Alguém me disse que desde que o cinema chegou aos nossos tempos, temos uma visão cinematográfica do mundo. Então porque é que não fazemos de tudo para ter uma vida de filme? Porque é que nos contentamos e não ansiamos por algo mais? Porque é que já não fazemos escolhas? Afinal podemos mesmo escolher. Podemos seguir os nossos sonhos. Podemos ser astronautas, viajar pelo mundo, pôr um sorriso na cara de alguém...pôr um sorriso em nós mesmos. É uma questão de não nos acomodarmos. Seguir um sonho não é só um sonho! É realmente praticável! Podemos fazer tudo! É querer! É pensar com muita força! Sabe bem não sabe? Saber que podemos fazer algo diferente, algo que nos move!
Se estamos tristes ou abalados podemos optar por ultrapassar os problemas e regressarmos ao céu azul. É só querer com muita força, agarrar-nos às coisas boas e seguir os nossos sonhos. Acredito mais do que nunca: O sonho comanda a vida.

sábado, janeiro 19, 2008

Amor Cão

Amor é traição, Amor é angústia, Amor é pecado, Amor é egoísmo, Amor é esperança, Amor é dor, Amor é morte.


O que é o Amor?

quarta-feira, janeiro 02, 2008

dois mil e oito

Nem é tanto a coisa do dia ou do ano. Basicamente é o conceito de termos uma nova oportunidade de fazer tudo de novo, de levantar, de tentar, de finalmente conseguir... é oportunidade para reunirmos forças e seguirmos em frente. Porque afinal não é a passagem do dia 31 para o dia 1. É a passagem do passado para o futuro, do velho para o novo, do fracasso para o possível o sucesso. A passagem para um sorriso interior, para um mundo melhor.

"Vou viver, até quando eu não sei ,que me importa o que serei, quero é viver."
O António Variações resumiu e muito bem.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

quase

Uma fronteira ténue mas dolorosa entre o aqui e o ali, entre o que consigo e o que desejo, entre a realidade e o sonho. O quase ter, o quase fazer, o quase...faltava o quase.


"O quase: regime atroz do amor, mas também estatuto decepcionante do sonho - a razão pela qual detesto os sonhos."

Roland Barthes in "A Câmara Clara"

segunda-feira, dezembro 10, 2007

6 graus

Só ontem me apercebi do significado do nome desta série. Existe uma teoria intitulada de teoria dos seis graus de distância que defende que são necessárias apenas seis ligações para que quaisquer duas pessoas no mundo estejam ligadas de alguma forma. Aquela história do primo do amigo da irmã do conhecido do meu colega. Acho engraçado isto das coincidências, dos destinos interligados, das pessoas fazerem parte da vida uma das outras de alguma maneira. Sem se aperceberem, sem sequer tendo a intenção de o fazer, jogam com as circunstâncias e logo com as suas escolhas e decisões. Saber que se calhar a nossa vida está a ser influenciada por um chinês qualquer que vive na outra ponta do mundo. Estranho, hã? Eu até lhe acho uma certa piada... tudo porque não sei quem é o raio do chinoca que anda a "controlar" a minha vida. Senão aí sim, o caso mudava de figura.

domingo, dezembro 09, 2007

anatomia de grey

"Ás vezes o que queremos, é mesmo o que precisamos (...) às vezes o que precisamos, é de um novo plano"

Sorri.

sábado, novembro 24, 2007

a lei da atracção

Dizem que se tivermos uma atitude positiva perante a vida, que só receberemos tudo de bom. Uma espécie de retribuição do universo, de teoria do "karma" ou algo parecido com a expressão "what goes around comes around".
Tudo bem, para mim serve.

sexta-feira, novembro 23, 2007

o (constante) regresso

olhos fechados. respirar devagar. ouvir o momento. sentir o silêncio. sugar a emoção. abrir os braços agarrar a vida prendê-la ao peito senti-la perto afogá-la na esperança segredar-lhe ao ouvido a falta que fez aqui perto prender-lhe os sentidos fechar-lhe as saídas beija-la devagar olhá-la por dentro prendê-la por fora tocá-la bem fundo levá-la ao limite e dizer-lhe baixo, bem baixinho com uma doçura fresca em tom de ameaça- Vem, fica. Estive à tua espera.

quinta-feira, novembro 22, 2007

jogos

Existe uma teoria realizada por Von Newman que diz que as ligações que estabelecemos uns com os outros são uma espécie de "jogos", estes podem ser de soma nula ou de soma não nula. Os primeiros dizem respeito por exemplo a relações de amizade em que existe reciprocidade no que toca a sentimentos; geralmente neste "jogo" nenhum dos indivíduos está num nível superior a outro. No caso do segundo, tratam-se de relações entre empregado/patrão por exemplo. Um tem sempre um nível de poder e comando superior ao outro.

São jogos com números, números que desta vez não têm nada que ver com contas de matemática. Jogos em que se medem as emoções, as acções e reacções, em que o posto em que se está pode realmente fazer a diferença. Jogos que hiererquizam as relações, em que se contabilizam a força, o poder, a valentia, a fraqueza, todas as lágrimas ou risos.

São só jogos, não os levemos demasiado a sério, não é?

sexta-feira, outubro 26, 2007

As corridas

Ele hoje disse-me que tem passeado, que tem andado por aí como sempre o fez. Ele hoje disse-me que tem estado por perto, que nos tem feito companhia mesmo sem o sabermos. Ele hoje disse-me que a quinta e os cãezinhos lá continuam, que a garagem lá vai andando e que há mais uma corrida que não pode perder. Ele hoje disse-me que tem estado em festas de anos, em épocas especiais, ou naquela simples e deliciosa conversa de rua, de café, de ocasião, onde contávamos com a sua presença. Ele hoje disse-me que ainda ouve o ruído da estrada, sente a pressão das mãos no volante, a adrenalina a correr no espírito, os gritos da multidão, a ansiedade pela meta. Ele hoje disse-me, em tom de confissão, o quanto aprecia o seu sonho permanecer vivo naqueles que o acompanharam na doce rapidez dos tempos. Ele hoje disse-me tudo o que eu sei que diria. Ele está mais que nunca vivo dentro de nós e acima de tudo vivo dentro do seu próprio sonho de velocidade, vida, de muita paixão, esses que nunca se desvanecem e que, como hoje, vemos serem representados noutras situações. É assim que nos deparamos com o seu típico sorriso mesmo diante de nós...o tio Fefé.

sexta-feira, outubro 19, 2007

A curva da alegria

Sabem aquela altura óptima na nossa vida que começamos a sentir que tudo pode ficar bem? Que ainda há tanta magia pela frente?
A minha avó Águeda chamava curva da alegria à parte do Marão em que se começava a avistar Vila Real. Foi a minha mãe quem me contou esta história à qual eu sempre achei imensa graça e decidi intitular-lhe erradamente de "curva do riso"(engraçadas as analogias das crianças...).
Mas ontem, pela primeira vez, quando vinha a caminho da "bila", apercebi-me de que o nome para aquela curva não podia ter sido melhor escolhido. Apercebi-me da alegria que é a cidade, as situações e as pessoas nos abraçarem devagar e em segredo à medida que contemplamos o lugar que nos viu crescer. A alegria de saber que chegámos e que não importa para onde vamos ou o que quer que façamos, seremos sempre bem recebidos e sentiremos o conforto de saber que após uma longa e estafante viagem, chegámos, finalmente, a casa.

quarta-feira, outubro 17, 2007

Tiago Bettencourt, Canção Simples

Gostei desta comparação, deste elogio: fazes muito mais que o sol. Também sinto que há coisas que tocam sem estarem por perto, que nos fazem bem estando longe. Há coisas que nos aquecem por dentro como o sol o faz por fora.

CANÇÃO SIMPLES

(...)
Tens os raios fortes a queimar
Todo o gelo frio que construí.
Entras no meu sangue devagar
E eu a transbordar dentro de ti.

Tens os raios brancos como um rio,
Sou quem sai do escuro para te ver,
Tens os raios puros no luar,
Sou quem grita fundo para te ter.

Fazes muito mais que o sol.
Fazes muito mais que o sol.
Fazes muito mais que o sol.
Fazes muito mais...

Quero ver as cores que tu vês
Para saber a dança que tu és.
Quero ser do vento que te faz.
Quero ser do espaço onde estás.

Deixa ser tão leve a tua mão,
Para ser tão simples a canção.
Deixa ser das flores o respirar
Para ser mais fácil te encontrar.
(...)

terça-feira, outubro 16, 2007



Sorriem, dão a mão, apertam-na decididos. Zangam-se, fazem birras e abanam com força aquelas perninhas que mais parecem umas canetas. São pequeninos, cabem nos nossos braços e cheiram bem... e eu sou a tia e ainda não dá para acreditar no título. E são MEUS sobrinhos e também não dá para acreditar. Lindos, especiais os nossos bolinhas...

São dias assim

"Qualquer ligação pressupõe uma desligação. O on não faz sentido sem o off e vice versa"
Ouvi, compreendi, racionalizei, assimilei. Mas não gostei, de todo. Porque que é que aquilo que mais prezo neste mundo, que são os sentimentos, as emoções, aquela química invisível que passamos secretamente uns para os outros, está destinada a desaparecer tão espontaneamente quanto aparece? E será que é assim tão bom por sabermos que um dia pode acabar? O prazo é o que nos faz aproveitar ou seríamos igualmente felizes (ou ainda mais) se tivéssemos todo o tempo para experiências, momentos, situações incrivelmente diferentes e igualmente carregadinhas de intensidade? Os segundos, os minutos, as horas e os dias que passam estão afinal do nosso lado ou são apenas mais uma invenção nossa que nos faz pensar mais e sentir menos? Estaremos nós a antecipar desligação das nossas ligações?...

apetites

Não vivo para escrever nem escrevo para viver. Vivo para viver e gosto de escrever quando sinto que tudo está bem ou que tudo parece correr tão mal. Ou quando simplesmente me apetece transmitir por palavras algo que quer sair daqui de dentro. Ou quando me apetece e pronto. Não sou artista mas faz-me bem, é só.

quinta-feira, outubro 11, 2007

21 gramas

o peso da alma o peso das memórias o peso dos risos e dos choros o peso do toque o peso do pensamento o peso do olhar e do respirar o peso dos amores e desamores o peso da tristeza o peso do desespero o peso da alegria e da felicidade o peso da compaixão o peso da entrega o peso dos objectivos e das metas o peso da vingança o peso do orgulho o peso do preconceito o peso do coração acelerado o peso do engolir em seco o peso da euforia o peso das descobertas e dos mistérios o peso de um flashback o peso de um momento um peso de vários momentos o peso daquele calor interior o peso daquilo que somos o peso da vida

sábado, setembro 22, 2007

O capacete dourado


O típico rapaz rebelde, popular que não quer saber de nada nem de ninguém. A típica rapariga inocente, frágil e racatada que espera por algo superior. O típico amor inesperado que acaba por transformar as duas personagens que se vão moldando um à outra. O resultado: um filme que mostra que acima de tudo é necessário viver. Seja num grande cidade, ou numa pequena como Vila Real. Viver com toda a intensidade.

As imagens, os sons, os sentidos apurados a sugarem a cada segundo as emoções e sentimentos que transbordam, descuidados, do nosso corpo. E em vez de deixarmos as memórias para trás, cobertas de pó, voltamos ao passado e vivemos tudo com mais intensidade porque agora sim, temos a certeza que o que passou valeu mesmo a pena.

Vemos a nossa vida de longe representada noutras personagens, vemos os mesmos sitíos que frequentávamos de longe, com saudade, ouvimos os mesmos sons e de repente parece que revivemos situações que tantas vezes desejámos que pudessem repetir-se uma e outra vez.

Hoje percebi que o processo de fazer um filme é bastante semelhante ao de escrever. É o acto de tentar mostrar o que sentimos, ao mesmo tempo que fazemos um esforço para que os outros entendam o que tentamos explicar, identificando-se de algum modo com a nossa história. É uma universalidade única, uma generalização peculiar. Uma estranha maneira de mostrar que apesar de sermos todos diferentes, de cada um ter as suas vivências únicas, conseguimos identificar-nos num sorriso especial, num olhar inquietante, num abraço quente, numa situação familiar. Todos diferentes sendo tão deliciosamente iguais.

domingo, agosto 26, 2007

Carta aos bolinhas

Olá Amélia, olá António. Sei que neste momento só se preocupam em comer, embirrar e dar pontapés (e assim será nos próximos tempos) mas tenho algumas coisas para vos dizer. Primeiro que têm uma mãe mandona e sorridente e que o vosso pai é um crente na cultura portuguesa, eternamente apaixonado pelo grande cantor Jorge Palma que um dia (esperemos) acabarão também por apreciar. Têm também três tios e uma tia. Mas os tios ficam para outra história...eu sou a vossa tia. Há tanto para dizer e contar que não tenho bem a certeza por onde começar para não vos deixar confusos. O mundo é complicado. Mas se olharmos de longe com distanciamento e optimismo ele acaba por se assemelhar bastante simples.
Primeiro, existirão um monte de princesas e príncipes, castelos e masmorras, lobos maus e dragões e também fadas madrinhas. Depois vão-se aperceber que o mundo é menos colorido, que as personagens que o integram são menos mágicas, ou por outro lado mágicas à sua maneira. Vão descobrir que o mundo não é a rua Diogo Bernardes nem a mãe Uxa e o pai Carlos. Vão descobrir que no mundo há mil e uma ruas mas nenhuma tão bonita como a vossa e que há muitos pais mas que nenhuns deles são tão especias e únicos como os vossos. Vão aprender mais tarde como falar e se expressar, vão conhecer o mundo e as coisas numa perspectiva completamente diferente. Vão chegar à conclusão que o mundo pode não ser tão mágico e cheio de fantasia como os desenhos animados mas que é bem melhor que isso porque é palpável, visível e a sua fonte de maravilhas é praticamente inesgotável. Vão aprender também que há pessoas boas e pessoas más e que nem tudo é tão cor-de-rosa como parecia ser. Vão aprender (e nem sempre compreender) que há pessoas que gostamos que nos magoam e que por vezes por muito que amemos alguém acabamos, inevitavelmente, por fazer algo de mau a essa pessoa. Vão aprender que somos pessoas, que não somos perfeitos mas que é isso que faz de nós tão interessantes e curiosos seres. Vão aprender que um filme pode mudar-nos a vida, que uma canção nos pode marcar para sempre, que um momento pode apurar todos os nossos sentidos e fazer acreditar que tudo vale a pena. Vão aprender que uma lágrima não é o fim do mundo e que haverá sempre alguém para nos segurar a mão nessas alturas menos boas. Vão aprender que um sorriso vindo do fundo do coração pode alegrar o nosso dia.
Vão também aprender (e saber logo no príncipio dos tempos) que se pode amar alguém sem sequer estar fisicamente perto dessa pessoa, sem sequer a conhecer, que é exactamente como todos nós gostamos de vocês.

Venham depressa bolinhas (mas tudo a seu tempo...) estamos à vossa espera. Não tenham medo, o mundo não é tão mau como parece.

quinta-feira, agosto 23, 2007

dr.house

Ouvi uma teoria sobre a vida: que é uma série de salas onde ficamos fechados com determinadas pessoas. Essas mesmas pessoas vão determinar o rumo da nossa vida. Se nos dão a mão e nos fazem sorrir, se nos olham com crueldade e nos fazem sofrer, se nos abraçam quando mais desejamos o calor de um corpo, se mesmo estando tão longe sofremos a sua influência como se estivessem perto, se nos fazem abrir os nossos horizontes e sonhar com algo superior aos nossos próprios sonhos, se nos contagiam com a suas gargalhadas e nos aquecem suavemente a alma, se nos fazem inocentemente acreditar num mundo que afinal não existe, se nos abandonam quando mais precisamos da sua presença, se estão lá, bem pertinho, quando as coisas pioram de tempos a tempos...no fundo se nos fazem bem ou mal.
Pode-se chamar uma questão de sorte. As aparências enganam não é? Por isso mesmo nunca sabemos quando é que devemos começar uma dada relação com uma pessoa (seja ela de amor, amizade, profissonal ou de qualquer outro tipo) porque ao ínicio a única coisa que temos é uma expressão facial ou determinados tiques. Como é que podemos saber se uma simples pessoa pode adoçicar o nosso dia-a-dia ou pura e simplesmente destruir tudo o que alguma vez tentámos ser? Como é que é suposto protegermo-nos?
É engraçado porque poderia ter muitas respostas para isto como por exemplo os erros nos ajudam a ser pessoas melhores, como o sofrimento nos torna mais fortes...etc etc Mas a verdade não é esta. Sim, acredito que sofrer faça parte do crescimento e mesmo do nosso disfrutar da vida. Mas vamos lá admitir, ninguém merece sofrer por culpa de outra pessoa, isso não é sofrimento, é altruísmo estúpido. As pessoas que nos rodeiam tanto podem dar-nos a mão como olhar-nos com desdém e mesmo que isso não comprometa toda a nossa vida, influencia-nos, muda-nos de algum modo tornando-nos melhores ou piores pessoas.
Sabem que mais? Nunca tive sorte no aleatório. Quero uma sala privada.

sábado, agosto 18, 2007

Fotografia vencedora do World Press Photo 2007.
Continuo sem entender porque é que a maioria das fotos eleitas neste concurso têm de ser de desgraça e destruição. Continuo sem entender porque é que tem de haver caras tristes e expressões desesperadas que nos transmitem sensações de sofrimento e dor. Não tenho grande conhecimento da área mas posso dizer que gosto de uma fotografia que imortalize sensações agradáveis que possam ser revividas vezes sem conta. Por outro lado, o sofrimento também deve ser relembrado numa tentativa de sensibilizar as pessoas para que não se repita. Mas sabem que mais? Continuo a adorar um sorriso desdentado, um olhar malandro ou uma figura cómica, nunca tive muito jeito para lidar com a desgraça...O caminho é pra frente e (se quisermos) a felicidade também.

sábado, agosto 11, 2007

Hoje foi um daqueles dias. Em que penso e repenso, em que medito sobre as coisas mais elementares. Foi daqueles dias de "tédio" que afinal acabam por servir para alguma coisa. Começo a acreditar piamente que tudo acontece por uma razão justificável. Um dia disse inocentemente que o universo é equilibrado. Devo confessar que o afirmei convictamente, com a certeza inocente de uma criança que acredita que vai haver sempre mais um dia de brincadeira. No entanto estas nossas certezas (não só estas mas outras quaisquer) acabam por estremecer nos piores momentos, é típico, é básico, é humano. Mas depois do medo, da mágoa, do sofrimento, depois de se ter batido mesmo no fundo, só há uma solução: respirar fundo, olhar para cima e rir, rir com muita força. Um dia surpreendi-me pelo que consegui ultrapassar. Não o afirmo por me achar forte e corajosa mas porque é mesmo assim que funcionamos, fomos feitos para sobreviver, para lutar e derrubar barreira atrás de barreira.
É verdade, tornamo-nos tão frágeis pelos mais pequenos e mesquinhos motivos: vamos esmorecendo, refugiando-nos dentro de nós mesmos. Mas também é verdade que temos uma capacidade de cura surpreendente que nos torna verdadeiramente especiais e sensíveis ao mundo que nos rodeia...Podemos morrer de tempos a tempos mas já não me sinto tão insegura com esta sentença do destino porque afinal temos a certeza que uma música bonita, umas palavras bem escolhidas, um sorriso, um beijo ou uma expressão familiar vão-nos acordar bruscamente e obrigar-nos a abraçar a oportunidade de viver, de andar por aqui.

quinta-feira, julho 26, 2007

Hoje

Hoje ele levantou-se com inesperada ânsia. Arregalou os olhos avermelhados, contraiu os músculos e apercebeu-se do frenesim inestético que (até hoje) tinha passado despercebido dentro de si. Vasculhou os papéis com escrita apressada, invadiu a loucura, abriu as portas daquele sentimento vazio que habitava lá bem no fundo e que agora teimava em dissolver as barreiras do inconsciente. Talvez um chá quente ou um copo de leite de frio. Talvez um banho relaxante ou uma boa massagem. Talvez até uma conversa aberta, sincera. Não, já nada curava este bichinho inquieto, insistente, insaciável.
Hoje ele levantou-se e abriu a sua alma às palavras soltas. Deixou as formas, as imagens, as linhas, as cores, a simetria, a confusão, a realidade e a ilusão apoderarem-se de todos os seus sentidos. Abriu a mente transbordante, limpando-a por momentos, dispondo-se finalmente a absorver em dimensão total e completa o mundo a negro, de ouvidos bem abertos.
Hoje ele tocou, viu, sentiu, amou cada elemento que o rodeava e acarinhava a cada segundo. Hoje ele pôs os pés no chão e apercebeu-se não só da sua existência mas do toque especial que essa mesma existência tem num mundo que não o seu. Hoje ele sabe. Está vivo.

terça-feira, julho 24, 2007

Sabem quando fazemos uma pergunta qualquer a uma criança e ela simplesmente, com uma expressão muito convicta diz :"porque sim"? Às vezes é mesmo o que me apetece, dizer "porque sim". Afinal tudo tem de ser assim tão confuso, de tão exigida meditação e drama? Tem de haver tantas questões, tantas noites mal dormidas, tantos momentos incertos? A vida tem de ser levada assim tão a sério? Eu cá passo a brincar com o destino. Quero rir com força, com vontade do que se passa à minha frente. Porquê?? PORQUE SIM.

sexta-feira, julho 13, 2007

Quero ir. Quero ficar. Deixar a saudade e levar as lembranças bem entranhadas no corpo, bem aconchegadas na alma... O que quero é deixar um pouco de mim, ir embora, esquecer, e no entanto pra sempre lembrar...


"e agora eu vou-me embora
e embora a dor não queira ir já embora,
agora eu vou-me embora
e parto sem dor."

Sérgio Godinho

terça-feira, julho 10, 2007

"Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho."


Alberto Caeiro, "Eu nunca guardei rebanhos"


E é assim. Ter aquele desejo de simplesmente não pensar...não só para não se sofrer tanto nos piores momentos, como também para tirar o total partido dos melhores.

Quero Sentir Sentir Sentir Sentir Sentir Sentir Sentir Sentir Sentir Sentir Sentir Sentir Sentir Sentir Sentir Sentir Sentir Sentir Sentir Sentir Sentir Sentir...e não pensar.

domingo, junho 24, 2007

Retirado da Gomes com o pequeno bloquinho à mão, numa daquelas tardes de domingo de conversas e divagações. Aquelas tardes que só nós sabemos:


O café vem assim a ser ao mesmo tempo e em todos os dias do ano, sucessivamente ou à uma, tribunal de costumes, aula de desporto, assembleia política, tertúlia académica, antro conspiratório. Em resumo: feira das vaidades. "Vanitas vanitatum", diz Eclesiastes. As vaidades compram-se e vendem-se em Vila Real, à mesa do café.

Referência óbvia à Pastelaria Gomes, in A. M. Pires Cabral,
Vila Real Itinerário, Vila Real 1988

domingo, junho 10, 2007

são momentos

Chamo-lhes momentos. Estas pequenas amostras de felicidade que parece que param no tempo como acontece nos filmes. Sabem quando se foca a atenção numa determinada cara, num sorriso especial? Ou quando as pessoas, os gestos, os acontecimentos andam em câmara lenta assim para nos fazer aperceber o quanto são importantes e necessitam do nosso forte batimento cardíaco para prevalecerem um pouco mais no tempo?

Há coisas muito más nesta vida, neste mundo mas esta é uma das coisas que me faz sentir bem, que me faz sonhar com algo superior. Os sorrisos que ficam gravados no coração, os olhares que nos irrompem pela alma adentro, os abraços que nos aquecem o espírito, os beijos carinhosos que nos deixam com "pele de galinha", os sabores amargos e doces, os cheiros fortes e leves, as luzes ofuscantes ou fracas, os sons estridentes ou silenciosos, qualquer coisa que nos toque bem fundo e nos faça ficar com a sensação que parámos entre este mundo e outro e que afinal conseguimos retirar algo de fantástico daquilo que fazemos e presenciamos.
Ouvi dizer uma vez "a vida é bela". Assim de vez em quando...acredito.